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VAIDADE E PODER PESSOAL – O SUBTERRÂNEO DA VIOLÊNCIA NO EXERCICIO DA LIDERANÇA

VAIDADE E PODER PESSOAL – O SUBTERRÂNEO  DA VIOLÊNCIA NO 
EXERCICIO DA LIDERANÇA

 “Tão perto e, ainda assim, tão longe".

“Quem tudo quer , tudo perde.”

                                                             

INTRODUÇÃO

Os que já tiveram, em alguma circunstância, contato comigo conhecem meu interesse pela mitologia grega, pelo quão bem ela revela o conhecimento  que aquele povo tinha  da essência da natureza humana.

A mitologia grega tem inspirado grandes pensadores e artistas a desenvolverem suas obras, recuperando o sentido mais profundo de nossa humanidade revelado pelos mitos gregos. Afinal, o que foi o renascimento, senão a volta ao humanismo exaltado na arte, na mitologia e na filosofia gregas?

As histórias míticas não são criações de uma razão infantil ou primitiva como em algum tempo se chegou a pensar e acreditar. O pensamento mítico, segundo o filósofo alemão Ernest Cassirer, em sua obra seminal - A Filosofia das Formas Simbólicas - é uma forma profunda de apreender e explicar o mundo e é, portanto, uma manifestação da razão.

Segundo Cassirer o mito  nasce da emoção do Homem diante da natureza. Emoção que nos toma tão completamente que nos vemos compelidos a criar uma história que dê conta de traduzir esse sentimento.

O BANQUETE DE TÂNTALO     

Tântalo, rei da Frigia ou Lídia (segundo outros, rei de Corintho), preferido dos deuses, era o único mortal a desfrutar da mesa olímpica e comer do néctar dos deuses. Não satisfeito com a condição de preferido, Tântalo almejou muito mais; ele pretendeu se tornar um igual aos deuses”. A consciência dessa distintiva predileção acaba por enredá-lo numa vaidosa e desvairada grandiosidade imaginativa”¹. Ser deus era ser poderoso, imortal, governar os homens. Significava o ilimitado.

Tântalo representa a incapacidade de aceitar os limites que a condição humana nos impõe. Isso significa a não aceitação da mortalidade/finitude, da doença, da dor e de toda a precariedade que a vida humana carrega, naturalmente, consigo.

Paul Diel em "O Simbolismo na Mitologia Grega",  afirma que: "Afoito por sua conquista e esquecido de sua condição mortal e seus limites, Tântalo chega a se exaltar com tal intensidade que lhe sobrevém a tentação de querer se tornar um igual entre as divindades, puros símbolos do espírito"².

Para dar conta de seu projeto de ser igual aos imortais Tântalo convida os deuses para um banquete em seu palácio e na impossibilidade de servir algo divino serve uma comida da terra. Ele serve a carne de seu filho Pélops esquartejado, revelando sua vaidade e desejo obsessivo de poder.

Os deuses horrorizados ao constatarem a absoluta desmedida do “anfitrião” (hybris na língua grega); a completa ausência de limites éticos impostos ao humano, ressuscitam Pélops  e condenam Tântalo a viver eternamente no Tártaro  imerso na água, apenas com a cabeça e braços para fora. Ali sozinho, quando tinha sede e tentava beber, a água se afastava, quando tinha fome e tentava comer, o alimento se afastava.   Desse mito nasce as expressões “Tão perto, e ainda assim tão longe...”e “Quem tudo quer, tudo perde”

MENSAGEM  AOS LÍDERES INSTITUCIONAIS CONTEMPORÂNEOS

Nas últimas décadas temos assistido no mundo corporativo uma verdadeira febre de exigência por colaboradores e equipes de alta performance. Líderes sendo convertidos a essa quase e equivocada “religião” chamada “alta performance”.

É indispensável que se atente aos efeitos dessa febre de expectativa de “alta performance” permanente. As estatísticas já anunciam índices crescentes de suicídio, quadros de depressão, stress, síndrome do pânico. A tentativa de salvação dos colaboradores se encontra em elevadas taxas de turnover em busca de ambientes com melhor qualidade de vida, ambientes de confiança e de relacionamentos saudáveis e sinceros.

 O filósofo , professor da Universidade de Berlim  Byung Chul Han publicou um texto chamado A Sociedade do Burnout. Ali, o autor onde examina as origens e a sustentação dessa doença muito frequente e típica dos ambientes laborais proveniente de altos níveis de pressão e cobrança por resultados.

Na mesma linha de reflexão e pesquisa encontramos Morrendo por um Salário,  livro do professor de Stanford Michael Pfeffer.

Ambos os autores denunciam os efeitos desastrosos dessa compulsão por alta performance camuflada sob o nome (equivocado) de desafio,  que no fundo tem muito mais a ver com a vaidade  e o desejo  de poder pessoal do que a intenção sincera,  profissional e institucional de entregar resultados.

Por se acharem superiores, muitos lideres atuais se sentem orgulhosos e vaidosos de sua possibilidade de contatar, sem testemunha, realidades inacessíveis aos “mortais comuns”. Essa é a razão pela qual não experimentam nenhum desejo de integração e vínculo em sua relação com os outros, que ao contrário experimentam dependência em relação a eles, ocasionada pelo medo da humilhação social.

Tântalo sacrificou seu filho para mostrar sua igualdade com o divino. Muitos líderes, hoje, estão sacrificando suas equipes e submetendo-as ruidosamente à sanha de sua vaidade/narcisismo mortífero, onde não há saciedade, não há celebração nem reconhecimento. Em um tal estado de coisas, cada colaborador/liderado, mesmo após entregar os melhores resultados, ainda são “comunicados” (comunicação ouvida por todos como ameaça) de que ainda são devedores porque o próximo desafio está chegando... O sentimento incorporado de devedor também determina a dependência e o medo citados acima. A dívida parece não se pagar nunca! A honra e o sentimento de pertencer não são salvos!

O que, em resumo, temos assistido são muitos líderes tantálicos entregando suas equipes aos seus clientes. A grande diferença é que os clientes não são deuses olímpicos e nem de longe imaginam o preço do banquete que lhes está sendo servido.

Tântalo esquartejou seu filho. A palavra esquartejar significa dividir, quebrar. O custo da  exigência pela alta performance permanente pode ser o esquartejamento psicológico de cada colaborador e o esquartejamento da rede que compõe um time.

Aí se encontra o paradoxo: no contexto atual a pesquisa sobre lideres bem sucedidos e, portanto, legitimados por suas equipes assinala que uma das responsabilidades essenciais do líder  é cuidar, prestar atenção em cada um, e no time como um todo. Isso requer a capacidade e a disponibilidade para enxergar para além do explícito e ouvir o inaudível. Infelizmente, assistimos, hoje,  muitos lideres agindo na direção oposta, realizando costumeiramente,  ritos/banquetes tantálicos com suas equipes.

O dano para os colaboradores pode ser permanente. No mito de Tântalo, Pélops foi ressuscitado, mas durante o banquete a deusa Deméter, ainda  transtornada pelo recente rapto de sua filha Perséfone não percebeu o que estava acontecendo,  mordeu e engoliu um pedaço da carne que lhe fora servida. Pélops foi  ressuscitado mas o deus Heféstos - deus dos artesãos – construiu e colocou uma prótese de marfim no ombro que fora engolido pela deusa. Pélops ficou conhecido como Pélops Ombro de Marfim.

A pergunta inadiável: quantos colaboradores se afastam do trabalho por problemas psicológicos e retornam algum tempo depois com um “ombro de marfim” (calmantes, antidepressivos, ansiolíticos e outras medicações) com o qual terão que conviver por um longo período de suas vidas, despendendo grande quantidade de energia na manutenção de um estado de alerta contra a ameaça de possíveis novas mordidas?

Para não me estender, vou adiar a  reflexão sobre a impossibilidade da construção e cirurgia para colocação de próteses psicológicas.

Não posso deixar de assinalar o destino de Tântalo, sozinho, imortal como queria, mergulhado nas sombras abismais do Tártaro e impossibilitado de matar sua sede e sua fome.  

Por último enfatizo; é mandatório que todos líderes  se guiem pelo autocontrole, empatia e prudência - advindos do autoconhecimento - para não se deixarem   enredar pela super excitação doentia da alta performance que induz à “des-medida des-humanizadora” na escolha do seu destino, na gestão do seu próprio desempenho e do desempenho do time.

(¹)Luciene Félix – Professora de Filosofia e Mitologia Greco-Romana

(2)Paul Diel – Psicologo – Autor de O Simbolismo na Mitologia Grega

 

 

Polo de Liderança Sebrae
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