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Dona Miúda: A trajetória do ícone do artesanato do Tocantins

Dona Miúda: A trajetória do ícone do artesanato do Tocantins

O presente artigo propõe-se a apresentar a trajetória de Dona Miúda, considerada um ícone cultural do Estado do Tocantins por seu trabalho precursor no artesanato com capim dourado. A análise abordará suas origens sociais, percorrendo sua história, sua participação ativa na comunidade quilombola de Mumbuca, no Jalapão - Tocantins. O seu reconhecimento como personalidade influente da região, suas contribuições e os fatores que influenciaram sua jornada, examinando a superação social e os enfrentamentos de mulher negra que em nenhum momento abriu mão de sua cultura e estabeleceu o matriarcado na sua comunidade.

O capim dourado é hoje reconhecido no Brasil e no mundo como um dos símbolos do Estado do Tocantins graças ao trabalho da artesã quilombola Guilhermina Ribeiro da Silva - a Dona Miúda.  Líder nata, representante da preservação da cultura e do meio ambiente e dos direitos das comunidades quilombolas no estado do Tocantins, teve tamanha influência na construção de sua comunidade, que sua biografia se funde com a história do cenário de sua vida - o Quilombo de Mumbuca, localizado próximo de Mateiros na região do Jalapão - Tocantins.  A região de Mumbuca era uma terra indígena (atribuída ao povo Xerente), até que os antepassados de Dona Miúda, ex escravos vindos da Bahia, chegaram e se estabeleceram na região devido a abundância das águas. 

Exaltada por ser a primeira a usar o capim dourado como matéria prima para o artesanato, na realidade, Dona Miúda a muito esclareceu que herdou seus conhecimentos de sua mãe, que por sua vez aprendeu a arte com indígenas da região, povo por quem nutria profundo respeito.  A mestre-artesã, foi na verdade a grande responsável pela popularização da arte de costurar as hastes douradas com fibra de buriti.

Dotada de grande destreza na arte de costurar o capim, disseminou a técnica na comunidade. Com espírito empreendedor, a mãe de doze filhos, viajava por dias com eles até as cidades mais próximas para comercializar seus produtos, enfrentando as dificuldades do isolamento da região e a falta de recursos financeiros.  Criou a Associação de Artesãos do Povoado Mumbuca, que hoje, mais de uma década após sua morte, tem como logomarca o punho da Dona Miúda segurando um fecho de capim dourado, o que denota o impacto de sua liderança. 

O legado deixado por Dona Miúda é a transformação do papel da mulher em toda a região, determinando o empoderamento feminino.  Na comunidade, o homem é responsável pelo plantio de mandioca, milho, feijão e outras culturas, e a mulher se estabeleceu como responsável pela colheita e pela preparação da farinha. Mas com a ascensão do artesanato em capim dourado, à medida que as peças foram ganhando mercado e chegando as mais requintadas lojas, mais artesãs passaram a se dedicar ao ofício.  O gênero feminino ganhou poder, por serem as mulheres as responsáveis pela produção e venda destes produtos. 

Dona Miúda estabeleceu sua liderança pautada no exemplo de mulher guerreira que honrava suas origens e que, ao compartilhar seus conhecimentos com sua comunidade, conquistou naturalmente profundo respeito e admiração.  Toda a comunidade de Mumbuca foi profundamente influenciada por seu trabalho e atualmente a tradição da produção de artesanato em capim dourado é a alternativa econômica que mais contribui para a geração de renda de toda a região. Por sua iniciativa a comunidade conseguiu inúmeras benfeitorias, como escola, telefone, energia elétrica e telhas para cobertura de algumas casas.

Aos 81 anos Dona Miúda faleceu de complicações cardíacas ao preparar-se para uma cirurgia de remoção de um tumor no fígado e foi sepultada em Mumbuca, onde nasceu e se criou. Conforme declarou o cantor popular Genésio Tocantins na ocasião de sua morte em novembro de 2010, Dona Miúda era pequena apenas no nome.  A artesã que inspirou até letra de música popular, durante sua trajetória, foi destaque em programas de televisão de grande alcance, tais como Globonews e Domingão do Faustão. Foi coroada rainha do capim dourado na festa da colheita no mês de setembro de 2010. E foi merecidamente reconhecida por seu trabalho no desenvolvimento do Estado do Tocantins quando foi eleita em 2009 por voto popular como uma das 21 mulheres da história do Tocantins, ocasião em que recebeu o prêmio Mulheres da História diretamente das mãos do então governador Gaguinho. 

Ao analisar a liderança de Dona Miúda, evidencia-se que o exemplo foi a principal ferramenta de que ela se valeu para transformar toda sua comunidade. Na sua simplicidade, percebi que seu o impacto social foi uma consequência da sua atitude perante a vida.  Com humildade e certeza de seu valor, nunca agiu de forma egoísta buscando guardar para si o conhecimento das técnicas que detinha, pelo contrário, ensinava e incentivava o trabalho no artesanato.   Sua destreza com o chamado capim dourado e com a seda de buriti resultavam em trabalhos tão bem-feitos que, encantavam os que a cercavam despertando o interesse em aprender suas técnicas.  Suas habilidades não eram apenas manuais, sua determinação a fez ser capaz de vencer obstáculos e transformar sua arte em um negócio, empreendendo e comercializando seus produtos em outras regiões, superando os estigmas da sociedade, o preconceito, o machismo e a falta de recursos financeiros.  O seu sucesso tornou-se importante fator de referência que estabeleceu um novo papel para a mulher na região, e essa nova posição social, permanece presente e determina o futuro das gerações vindouras. Por causa de seu trabalho, hoje toda a comunidade tem orgulho de suas raízes, busca seus direitos e defende a sustentabilidade. 

REFERÊNCIAS

COTRIM, Maria José.  Precursora do artesanato do capim dourado falece no HGP.  Conexão Tocantins. 11.11.2010.  Disponível em: < https://conexaoto.com.br/2010/11/11/precursora-do-artesanato-do-capim-dourado-dona-miuda-falece-no-hgp#:~:text=Dona%20Miuda%20%C3%A9%20conhecida%20at%C3%A9,%E2%80%9D%2C%20frisou%20o%20filho%20emocionado.>   Acesso em: 18 abril de 2021.

MEDINA, Maria de Fátima Rocha.  Dona Miúda – Heranças que o Tempo não Ofusca.  CEULP/ULBRA.  Disponível em: http://ulbra-to.br/uploads/DonaMiudaPorMariaMedina_1.pdf. Acesso em: Acesso em: 18 abril de 2021.

MUMBUCA. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikipedia Foundation, 2015. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Mumbuca&oldid=42283186>. Acesso em: 18 abril de 2021.

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